Da IA à robótica, Einstein Frontiers 2025 reúne lideranças para moldar a saúde do futuro; relembre como foi o evento
04/04/2025
O Einstein Frontiers 2025 foi ponto de encontro das lideranças de principais organizações de saúde do Brasil e do mundo, startups visionárias, médicos e profissionais assistenciais interessados não apenas em antecipar as tendências tecnológicas do setor, mas também em estabelecer bases sólidas para a tomada de decisões estratégicas.
Realizado nos dias 26 e 27 de março, em São Paulo, o evento contou com 43 palestrantes – 13 internacionais e 30 nacionais. E entre os momentos mais aguardados da programação, estava o painel de John Halamka, presidente da área de inovação da Mayo Clinic.
Após as falas de abertura de Sidney Klajner e Claudio Lottenberg, Halamka subiu ao palco para apresentar os mais recentes avanços da organização que atua em Inteligência Artificial e data anlytics, destacando, entre eles, um algoritmo capaz de detectar sinais de câncer de pâncreas em estágio zero – antes mesmo de serem visíveis ao olho humano.
O executivo, contudo, também trouxe uma reflexão sobre a necessidade de bases de dados em escala global, alertando que algoritmos treinados com informações provenientes de determinadas regiões dos EUA podem não apresentar a mesma eficácia quando aplicados em outros países. Nesse contexto, a Mayo Clinic Platform tem liderado a criação da Platform Connect, uma rede global de dados de saúde, que pode ser uma solução para essa questão.
A iniciativa foi aprofundada em uma mesa de discussão que reuniu Edson Amaro, Eric Harnisch, Robert Wartenfeld, Byron Yount e Brad Wouters, com moderação de Sidney Klajner. Os participantes destacaram como o projeto visa mitigar vieses nos treinamentos de algoritmos e promover maior equidade na saúde, além de oferecer suporte a startups que desenvolvem soluções com impacto global.
Na sequência, Fernando Moura conduziu uma mesa de discussão com Rodrigo Deliberato, Fernando Slamovitz e Aline Sereia sobre o impacto da Inteligência Artificial e da análise de dados na medicina de precisão. Moura destacou que essas novas tecnologias estão tornando essa abordagem menos reativa e mais proativa, citando, entre os avanços, ferramentas capazes de identificar fragmentos de DNA do câncer no sangue dos pacientes, permitindo determinar tanto a localização do tumor quanto seu estágio.
Deliberato, por sua vez, ressaltou a importância de estruturar prontuários eletrônicos de forma a facilitar o treinamento de algoritmos e também a necessidade de capacitação dos profissionais de saúde para essas tarefas. Já Aline e Slamovitz apresentaram os avanços das startups em que atuam – BiomeHub e Yeda Health, respectivamente –, ambas focadas em soluções baseadas na análise do microbioma.
Ainda no tema da IA, Isabel Pimenta, professora da Universidade Johns Hopkins, demonstrou na prática uma tecnologia capaz não apenas de transcrever conversas entre médicos e pacientes, mas também de organizar automaticamente as informações no prontuário.
Claudia Laselva compartilhou casos de aplicação de algoritmos no Einstein, incluindo um para acelerar a aquisição de imagens em ressonâncias magnéticas, que reduziu o tempo de exame, ampliou a capacidade de atendimento e trouxe ganhos em eficiência operacional e produtividade. Paulo Zimmer, por sua vez, explorou o potencial dos agentes de IA para automatizar tarefas hiperespecíficas. Ambos também participaram de um debate moderado por Anderson Souza, da Oracle.
Biotecnologia, potencial brasileiro para desenvolver inovações e virtual care
O segundo keynote speaker do evento, Robert Langer, revisitou sua trajetória de décadas de pesquisa em RNA Mensageiro, tecnologia que permitiu à Moderna, empresa que cofundou, desenhar em apenas dois dias a vacina contra a COVID-19. Ele também destacou que, no início de sua carreira, seus estudos sobre drug delivery enfrentaram ceticismo, mas que hoje essa mesma tecnologia desponta também poderá ser utilizada para o tratamento do câncer. Além da palestra, Langer respondeu a perguntas do CEO do Einstein, Henrique Neves.
Na sequência, a especialista em biodiversidade Ana Maria Pereira apontou que, apesar de o Brasil deter a maior biodiversidade vegetal do mundo, menos de 1% desse potencial é explorado. Do ponto de vista regulatório, segundo ela, já existem bases estruturadas para impulsionar esse desenvolvimento, incluindo iniciativas como o projeto da farmácia viva para o SUS.
Cris Bertolami compartilhou a experiência da startup Wecare Skin no desenvolvimento de dermocosméticos para pacientes oncológicos a partir de ativos da biodiversidade brasileira, destacando sua recente expansão para os mercados dos EUA e Europa. Diego Lencione abordou os desafios e aprendizados da internacionalização da Phelcom, enquanto Marco Antonio Negreiros, da Eyecare Health, apresentou a solução inovadora de sua startup para ampliar o acesso ao cuidado oftalmológico, especialmente em regiões com escassez desses especialistas.
Já as biotech Dharma Bioscience e Speratum Biopharma mostraram as soluções que estão desenvolvendo com microRNA.
A programação do primeiro dia também contou com Omer Weissberger, da Biobeat Israel, e Maneesh Goyal, COO da Mayo Clinic Platform. Weissberger apresentou um dispositivo não invasivo que, posicionado no peito do paciente, monitora sinais vitais em tempo real e utiliza IA para prever deteriorações clínicas iminentes. Além disso, a tecnologia pode ser usada para um diagnóstico mais preciso e confortável da hipertensão.
Goyal, por sua vez, detalhou os esforços da Mayo Clinic para reduzir o tempo de internação, promovendo o cuidado domiciliar e coordenado a partir de um centro de comando que monitora pacientes 24 horas por dia. O próximo passo da instituição, segundo ele, é viabilizar a administração de sessões de quimioterapia em domicílio.
Startups, edge computing e robótica
O segundo dia teve uma manhã dedicada às startups da área da saúde. Afinal, incentivar o empreendedorismo em saúde foi uma parte fundamental do evento. Até por isso, os paineis sobre investimentos em startups já se tornaram uma tradição do Frontiers e muito aguardados pelos empreendedores da área.
Logo nos primeiros painéis da manhã, Enrico Carbone compartilhou orientações estratégicas para startups que estão se preparando para abrir ou já estão em uma rodada de investimento. Ele afirmou que é importante começar o relacionamento com os investidores muito antes de pensar na captação e que uma warm intro (uma indicação) acaba fazendo toda a diferença. Para as biotechs, apontou que é essencial começar o relacionamento fora do Brasil o quanto antes.
Já Daniel Ibri trouxe um panorama dos investimentos em healthtechs nos últimos anos, dizendo que soluções de SaaS historicamente recebem o maior número de aportes, mas que as de IA já estão no segundo lugar. Ele também mostrou que, apesar de ter havido uma queda no número de deals em relação à pandemia, o ano de 2024 sinalizou uma recuperação.
Na mesa de discussão, Claudio Mifano recebeu Rodrigo Catunda, Bruno Maimone e Joaquim Lima, especialistas em investimentos em startups em fase de growth. O grupo analisou os motivos pelos quais nenhuma healthtech no Brasil ultrapassou US$ 1 bilhão em valor de mercado ou em seu exit. Destacaram que, ao contrário do setor financeiro, onde a disrupção costuma ser mais radical, as startups de saúde tendem a promover melhorias incrementais para os incumbentes. Além disso, enfatizaram a necessidade de maior clareza por parte dos empreendedores ao apresentar seus negócios e observaram uma redução no número de empresas avaliadas, embora tenham notado um aumento na qualidade dos projetos.
Isadora Kimura e Pedro Dias participaram de um bate-papo com Thiago Julio sobre os desafios enfrentados pelas startups de digital health para escalar seus negócios. Isadora destacou que, no início, a Nilo se posicionava como uma clínica digital, mas precisou pivotar para ser uma empresa de SaaS, impulsionada pela demanda do mercado. Já o CEO da Mevo ressaltou as dificuldades em demonstrar o valor da prescrição digital—cuja adoção só ganhou tração com a pandemia—e mencionou ter passado quase seis anos sem gerar receita.
Em seguida, Marcelo Zuffo apresentou um projeto que usa computação de borda para implantar chips em até 5.000 pacientes com o potencial de monitorar sinais vitais e emitir alertas caso necessários.
Já Paulo Teixeira, CEO da Alabia, demonstrou no próprio palco do Frontiers como a robótica está impulsionando a eficiência operacional das organizações de saúde ao interagir com um autômato desenvolvido pela sua empresa.
No penúltimo bloco do dia, Bruno Pina explorou o papel da IA generativa e dos agentes de IA no suporte a médicos durante procedimentos cirúrgicos. Stephen Thompson, vice-presidente da Intuitive, apresentou os avanços em equipamentos de cirurgia robótica desenvolvidos pela empresa. Já Steve Bell ofereceu uma visão global sobre a evolução da cirurgia robótica, destacando inovações como um sistema capaz de realizar trombectomia neurovascular em casos de AVC, um robô de precisão micrométrica para procedimentos odontológicos e um para coleta de sangue, que aplica ultrassom para localizar a veia do paciente e executa a coleta de forma autônoma, com precisão próxima a 100%.
Por fim, Ronan Damasco, da Microsoft, destacou os agentes de IA, os digital twins e a computação quântica como tendências tecnológicas emergentes e participou de uma sessão de perguntas e respostas ao lado de Eliézer Silva, diretor do Sistema de Saúde Einstein.
E em meio aos paineis do Einstein Frontiers, aconteceu também a 14ª edição do Circuito Einstein de Startups, com participação de Ciclix, Dharma BioScience (ARG), Dr.Scriba, Eywa Biotech (URU), Hoobox, Probrain, Wecancer, Wecare.
Após dois dias assim intensos sobre inovação em saúde, já estamos ansiosos para a próxima edição do Einstein Frontiers!
O evento contou com o patrocínio de Microsoft e Oracle.