Como a inovação pode contribuir para que haja realmente uma inclusão digital dos idosos?

Sueli Rodrigues tinha 68 anos quando descobriu um câncer no estômago. Como parte do tratamento, precisou retirar parte do órgão, o que a fez perder 10 kg. Para superar a doença e as mudanças no seu corpo, recebeu uma sugestão de uma amiga: “vamos criar um blog?”

“Eu respondi ‘o que é isso?’. Não sabia se era de comer, de beber”, contou Sueli, arrancando risadas, durante o evento Longevidade: Inovações e Promoção da Saúde, organizado pela Eretz.bio, a área de inovação do Hospital Israelita Albert Einstein.

“Eu falei que estava velha e que as pessoas queriam ver na internet gente com ‘corpo violão’. Mas minha amiga respondeu que a internet precisava de pessoas de idade, que servissem de inspiração para outros idosos. Aí criamos o ‘Blog da Su 70’, e em 20 dias ele explodiu. Havia essa necessidade de uma pessoa idosa falar da sua vida online. Eu tenho cara de pau, me mostrei, e deu certo. Fui parar até na Fátima Bernardes”, lembrou.

O sucesso do “Blog da Su 70” retrata como há uma demanda por novas tecnologias pelo público idoso, que na maior parte das vezes acaba excluído do ambiente digital. Nesse cenário de exclusão tecnológica, a pandemia da COVID-19 atuou como um catalisador dos problemas enfrentados pela população brasileira idosa.

“Quando começou a pandemia, decidimos parar o atendimento presencial e fazer por telemedicina”, disse a Dra. Thais Ioshimoto, médica geriatra do Residencial Israelita Albert Einstein. “Só que aí percebemos que os idosos não tinham smartphones para fazer a consulta. A alternativa era pelo telefone. Mas muitas vezes o paciente com mais idade não escuta direito, acaba sendo necessário ficar gritando, chamar o filho”, recordou.

Danielle Falcão, idealizadora e CEO da Redesign for All e da Deficiência Tech, trouxe números para embasar a necessidade de mudanças. “Menos de 2% dos sites são acessíveis. Não é somente no Brasil, isso é mundialmente”, lembrou. Como solução ela propôs que startups e empresas já estabelecidas busquem cada vez mais validar seus produtos com idosos antes de lançá-los ao mercado.

“Muito do que é feito para o idoso não é voltado para o idoso em si, é para a família, para o entorno”, constatou Yeda Duarte, professora e coordenadora do estudo SABE – Saúde, Bem-Estar e Envelhecimento.

Como está a longevidade no Brasil?

No estudo, a cada cinco anos, sua equipe faz um mapa da população idosa da cidade de São Paulo. Durante a pesquisa, perceberam que as pessoas que estão chegando hoje aos 60 anos estão em uma situação mais complicada que aqueles que completaram 60 duas décadas atrás, apesar da expectativa de vida no país ter aumentado nesse período. Hoje é de 73,1 anos para os homens e de 80,1 anos para as mulheres, segundo o IBGE.

“O que vemos na mídia é a população idosa sendo mostrada como se estivesse muito bem, toda sarada, com um glamour muito grande. É claro que muita coisa mudou em termos de envelhecimento. Mas não é correto afirmar que as pessoas estariam envelhecendo bem. Elas não estão. Principalmente a última geração, as pessoas que nasceram nos anos 1955, está chegando ao envelhecimento com mais incapacidades”, explicou.

Para ela, uma das formas de a inovação contribuir com o envelhecimento é entender as demandas e as especificidades dessa parte da população e buscar tecnologias que possam resolvê-las. 

Por fim, Arlei Alves da Silva, cofundador da Safepill, startup que está incubada aqui na Eretz.bio, contou como foi o trabalho para validar a solução de sua empresa. A Safepill desenvolveu uma box onde os medicamentos são separados em sachês por dia e horários de prescrição. Entre suas vantagens estão aumentar a eficácia do tratamento e dar maior autonomia aos pacientes.

“A gente ficou meses para buscar a embalagem ideal, para entender de que forma ela seria fácil de abrir, qual seria o tamanho de letra adequado para os idosos lerem. A gente validou no Residencial Israelita Albert Einstein com idosos de diferentes níveis de dependência”, lembrou.

“Íamos colocar os medicamentos em uma embalagem cortada, como é feito em muitos lugares do mundo. Mas percebemos que essa embalagem, para a pele de um idoso, que costuma ser mais sensível, machucaria muito. Então íamos por um caminho e mudamos completamente. É com essa atenção aos detalhes que a gente trabalhou”, acrescentou.

O evento contou, ainda, com a participação dos ouvintes, que eram convidados a se juntar aos palestrantes para uma grande roda de discussão, conforme tinham dúvidas ou posicionamentos.

Perdeu o evento? Então fique ligado nos canais da Eretz.bio, onde vamos divulgar os próximos Innovation Day.

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